BONECA DE TRAPOS OU A POESIA DA ESCULTURA DANÇANTE

1.Num universo poético moderno onde a poesia é cada vez mais estéril, mais pobre, onde muitos querem que a poesia se torne num negócio para massas, onde se querer à força toda ser-se conhecido, poesia da palavra estereotipada, onde se fala muito sobre poesia, mas pouco de acertado se diz, onde há as chamadas oficinas de poesia (como se a poesia se pudesse aprender ali), onde falta deveras aquilo a que nós chamamos o sangue poético, a poesia da Boneca de Trapos é uma poesia rara e refrescante.
Há de facto nesta poesia algo de novo, ou, pelo menos, uma maravilhosa reciclagem da palavra poética.
Nesta poesia encontramos o fino ritmo da linguagem, um ritmo rápido, de frases curtas, nuas de acessórios, singelas, mas marcante, onde graças à destreza do substantivo (o adjectivo é raro) se consegue criar um universo denso e intenso, capaz de ultrapassar a escultura das palavras para nos conduzir até ao fundamento ctónico e musical, ou uterino, das coisas:
Delapidação de folha. Gasto inútil de negra tinta.
O verbo não encontra a forma primitiva,
A palavra em que me digo, há muito está proscrita.
Em rigor, não eram minhas as asas
Nem o voo dos pássaros. Nada era meu... e eu sabia.
Por isso parto!
Regresso agora ao ventre da vaga que me pariu.
Peixe fora d’água, alimento fatal de gaivota.
Mãe...
Esta poesia não descreve, mas antes apresenta-nos uma sucessão de aparições maravilhosas, muitas vezes marcadas por uma obscura transparência. Ou seja, esta poesia, embora partindo, grande parte das vezes, da realidade circundante, das coisas concretas, reais, em quem abundam palavras concretas como um vestido, um porto, uma ripa, o peixe, a água, o pó, a berigindela, as papoilas, o mar, a taça, a cama, etc., ela já nada tem a ver com a aparência do real enquanto real, pois que a linguagem a transfigurou num maravilhoso universo de imagens imprevistas e surpreendentes, em suma na presentificação de algo, mas de algo mágico, algo que nos fica de uma maneira ou de outra inacessível, mas que, por um processo inexplicável, simplesmente compreendemos.
E repare-se na força e intensidade dos seguintes versos de frases curtas, nuas de acessórios, de um ritmo muito intenso e marcante, sensual, e onde o substantivo concreto (linguagem fortemente substantiva) como já frisámos, impera:
É no beijo que a língua tece
O laço . o lastro . o fogo . o berço.
Que a vaga baila. Espuma e sémen.
Da palavra, gérmen.
Choro e riso.
Cintila o corpo.
(O corpo é casa. Eu água, tu fogo ..)
Espalma-se o beijo
Como o desejo que se aduna.
É no teu beijo que diminuta, engrandeço.
Mulher ou bicho?
Nem uma coisa nem outra: risco-te!
Podemos também dizer, misturando algumas palavras, que lemos algures, do ensaísta Eduardo Lourenço, que nos encontramos perante uma poesia onde há um ( maravilhoso ) excesso do real. Pois que ela inunda os objectos reais, ou a realidade de onde parte, com o seu modo de dizer tão peculiar e luminoso; isto é, graças à luminosidade portentosa do seu verbum metamorfoseia essa realidade, e deste modo a supera, deixando-nos enxergar um lugar autónomo, sobre- real.
De súbito, sentimo-nos num novo continente, numa terra que, há muito existe em nós, mas que a labuta do dia-a-dia dilacera e nos faz esquecer. É que a palavra poética, embora estando no mundo e sendo do mundo, liberta-nos desse mesmo mundo, porquanto em luta com a mastigação discursiva do mundo, ela descobre por rara e imerecida graça a passagem para esse Instante onde repousaríamos para sempre, mesmo que a nossa marcha fosse mais vertiginosa que a luz . *
Esta poesia tem, precisamente, o poder de nos revelar esse Instante Essencial, primogénito, ou inicial, o Lugar- Lugar, o espaço em que a laje é laje, o Círculo onde as palavras são o próprio silêncio que diz tudo, a Fonte de onde tudo brota e para onde tudo se recolhe, em suma - a mais alta forma de unidade e liberdade. Vejamos:
Ali era o lugar. O espaço em que a laje era
Laje,
O Sol tombava.
Subia a Lua. O mar sabia de ti o cheiro.
E tu de mim, intrínseca, qual claridade vate, irisada pupila
Em teu olhar.
Para aquém das grades, no negrume da noite
Dispensámos as palavras...
2. Na reflexão anterior, a dado passo, falávamos numa escultura das palavras. Se aplicámos ali aquele termo foi por que, a nosso ver, esta poesia, no seu aspecto formal e no uso do substantivo, sobretudo o concreto, nos traz à memória o cuidado escultural dos clássicos, aquela tendência de moldar (faz-nos igualmente pensar nas mão do escultor moldando o barro, dando-lhe uma forma, mas também na elasticidade desse mesmo barro) ou seja, há nesta poesia um grande equilíbrio rítmico - formal.
Mas se é verdade que nesta poesia existe uma forte tendência apolínea (escultórica, plástica e formal ) , a força dionisíaca, no entanto, encontra-se igualmente presente. O ritmo musical e a dor que se pressentem em muitos destes versos são o efeito dessa poderosa força ctónica e órfica. E isto é o que podemos perceber no poema de cariz metapoético “ Da Mineralidade do Poema” do qual passamos a transcrever duas estrofes :
Todo o poema é Pedra fossilizada
Onde
O ensejo, o ocaso, a madrugada
Rasgaram precipícios em delimitação
De tempos
De somatórios & Sistemas
Polimorfos
Diamantes (diademas) ou tão-só
Mica, grafite, pó...
[... ]
Um cello toca. Tange.se a harpa, a lira gira, a sevilhana dança
em pontas - arcaica bailarina -, por sobre camadas sobrepostas
de húmus e de folhas
Em
Arqueologia aquosa e sensitiva.
O poema [des]cobre-se __ mineralizado. Rocha.
Como acabámos de ler, o poema é uma pedra mineralizada, isto é, ele é, sobretudo, forma, pois que para se tornar poema ele tem que se constituir por meio das palavras como corpo formal. No entanto, este corpo é portador de princípios que transcendem esse princípio formal, pois que há nele o “ ensejo “, “ o ocaso “, a “ madrugada “, ou seja, o espírito transfigurador, e que rasga todos os “ precipícios em delimitação “, ou seja, ele ultrapassa os limites do criticismo e da racionalidade, permite-nos mergulhar num universo profundo, abissal, onde as coisas são mais do que o que são, onde são arqueologia aquosa e sensitiva. Diremos então que o poema nos permite ver para lá dos olhos. Quer dizer, o poema deixa-nos ver o mundo por baixo do mundo, por baixo de camadas sobrepostas de húmus e de folhas, permitindo-nos assim mergulhar na verdadeira verdade do mundo. O mundo da vontade cega como Schoppenhauer o descreve na sua obra: “ Die Welt als Wille und Vorstellung “.
Contudo esta poesia, graças à sua mineralidade ( O poema [des]cobre-se __ mineralizado. Rocha. ), à sua corporalidade, consegue-nos resguardar dos perigos dessa verdadeira verdade do mundo, que pode ser destrutiva. Quer dizer, o poema aparece-nos aqui como uma espécie de janela entreaberta sobre esse mundo, deixando-nos ver o seu fundo, e mesmo descer a esse mundo, onde "principium individuationis" não existe e onde descobrimos a fraqueza da nossa faktizität, ou seja a tragédia de sermos, de não sermos capazes de explicar a realidade que nos rodeia, nem o nosso estar-aqui, - racionalmente. Mas por outro lado, ao mesmo tempo, o poema tem o condão nos trazer de regresso ao interior do manto de Maia, salvando-nos assim, por meio da beleza escultural (plástica), da desintegração do indivíduo no caos abismal que se abre sob seus pés. Pois que o poema [ des ] cobre-se, isto é, cobre e descobre.
Em boa verdade, uma das coisas que mais nos surpreende nesta poesia surpreendente é a capacidade que esta poeta tem em realizar um equilíbrio quase perfeito entre dois espíritos estéticos em si tão diferentes e antagónicos como o são o dionisíaco e o apolíneo, mas que, como Nietzsche nos faz ver, são inerentes à arte.
De facto esta poesia permite a convivência desses dois princípios estéticos dentro do poema, sem que haja a desintegração do indivíduo, sem que nada se quebre, sem violência destrutiva. Por isso a poeta pode cantar:
Não me lembro de ter
Chicoteado palavras
Maltratado símbolos ou signos
[... ]
Concluindo, afirmamos encontrarmo-nos perante uma poesia - escultura não estática, mas sim vivificada pelo movimento interior da música das coisas. Por isso ao contrário de muita poesia de corte clássico, e outra de corte moderno, onde existe um formalismo demasiadamente estático, esta poesia, conservando esse formalismo e sua plasticidade, é ao mesmo tempo uma poesia da música, do movimento...
Diremos: uma bela escultura, sensitiva, maleável e dançante.
* Eduardo Lourenço " Tempo e Poesia " , página 38, Gradiva 1. edição: Maio 2003
3.Um poema de Boneca de Trapos:
DESCALÇOS SOMOS
“viajar é mudar o cenário da solidão.” - Mário Quintana.
pouco importa se aqui, ali, ou mais além.
os olhos buscam, ininterruptos, buscam.
____os olhos.
o fundo dos olhos… d’alguém. não de um alguém qualquer. os olhos buscam os olhos
de quem
amamos.
“amar é cuidar da solidão do outro sem nunca a preencher, sequer a conhecer” afirmo-te.
(não, não é minha a frase. Christiane Bobin o disse…)
contudo,
por vezes, não raras vezes, encetamos a viagem.
num vai e vem - marés ou asas. não sei.
ou barcaças
paradas. no cais da amarração … estas. iguais.
sem tinta.
dis_tintas, no desassossego da paisagem.
elas, aqui, em solidão acompanhada, retida ou viajada: a que investigamos, sabendo-a. certa, ombreada em cal e pedra, anos a fio, décadas a fio, séculos a fio e a outra, face plena da mesma, que se nos impõe,
passaporte que aguarda
a hora
pré-inscrita
___________________da retirada. da partida.
_______________e da chegada. por entre águas e margens, a fuga.
do todo. do nada. do que somos ou acreditamos ser e do que, sendo, encapotamos.
gigantes ou gnomos. druidas, fadas…
se é sempre de amor (ou falta dele) que falamos. que sofremos…
é de nós que fugimos. não do outro “vela ou porto”. do que nos tolda em toalha de água, reflectidos.
vestimos, nus, o verbo; desarmamos a alma; baixamos guarda, descalços somos.
"eu te recebo de pés descalços: esta é minha humildade e esta nudez de pés é a minha ousadia."
quem disse?
Clarice. Lispector, óbvio. quem mais diria?
…
igual, a minha. ousadia. dádiva confessa. ouso, ausente.
e, na mente, sempre: “amar é cuidar da solidão do outro…”. amei-te (como te amo ainda…) mas tu não sabias de amar. quedaste-te, de mim ausente. e amei-te, mais, e mais ...
cuidar-te…
és
sentido em minha vida…
sabido é que a ausência apenas agudiza o verbo; o verbo insidioso que se esmola em contrafortes de portas distintas, como que pedindo que as oiças.
por detrás das portas… oiço-te.
e vais e vens. vens e voltas.
como a massa d’água que contorna o porão de teu navio a cada estação de pássaros ou colheitas.
esta, que ontem se principia(ou). presente a forma; no pretérito do verbo, futurista.
[há uma árvore escondida em cada tábua. um nó de vida … ]
de lá de fora
o cheiro a vinho mosto e engaços: cachos despojados de bagos.
bojudos, os bagos em cores de ocre. as parras. secas, pó com que te des_cubro…
e o chão. pejado de maças. rubras, mínimas. riscadas…
...
agora, o aroma pálido dos corpos fustigados no vento.
recolho-me, encasco-me, esconsa no reflexo do que sou e nunca sendo - simplicidade de folhas e de juncos, barro em borda-água.
e, nesta lividez aquosa de verdades e metáforas, os segundos, enredosos, que se esvaem: espuma no cais do rio ou bátegas na amurada do teu porto em vitupério da palavra…
sabes, sinto que, em singeleza de malvas e de uvas passas, amesquinhamos sentidos no sentido imperativo da viagem.
“ é sempre de amor que sofremos, mesmo quando acreditamos de nada sofrer. “
Estás certo: hoje acordei bruma!... ou lava?
SOBRE A BONECA DE TRAPOS *
"Biografia possível - Boneca de Trapos"
“De seu nome primeiro, Maria, nasce em Lisboa, no início dos anos sessenta. De si diz ser não mais que uma mulher entre milhões, em nada distinta. Em termos formativos diz-se na fronteira entre o social e o científico. Em termos psicológicos, vê na escrita o agente libertador e o algoz que a retêm, revelando-a mais do que gostaria. Escreve desde que conseguiu juntar letras. Leitura e escrita foram sempre companheiros de viagem. Não gosta de luzes de ribalta, convive mal com elas. Disso se deu conta quando, adolescente, incentivada por professores e amigos, publicou textos soltos pela primeira vez.
Durante décadas escreve a espaços sem publicar. É já na década de noventa que ressurge da gaveta onde não cabe. Publica. Suporte digital e papel. Em nome individual e em colectâneas. Em jornais e revistas. Em Portugal e Brasil. E de novo retrocede ao anonimato onde é mais ela.
E assim deseja continuar - “Boneca de Trapos_em saltos altos”, e nada mais. “
* Esta nota biográfica foi redigida pela própria Boneca.
Luís Costa, Züschen 2009
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